Juracy sentiu-se sonolenta naquele dia, consequência de seus estudos constantes. Sentia-se sozinha. Vez por outra algumas lágrimas escapavam de seus olhos, quando então ia regar as flores no jardim, encontrava livros interessantes ou ainda devorava guloseimas para preencher o vazio. Deitou-se no sofá, colocando o livro que estava lendo, "A Sua Mulher Interior", aberto, na mesinha próxima à poltrona. Deixou-se levar em relaxamento profundo, desejando o retorno de sua alegria esquecida, quando levou um susto: na poltrona, segurando uma rosa vermelha muito perfumada, havia uma mulher.
- Quem é você? Como entrou aqui? Juracy perguntou.
- Bem, a porta de sua mente estava entreaberta, e entrei. Eu sou a sua mulher interior, a do livro que você está lendo, e estou lhe fazendo uma visitinha porque alguns toques se fazem necessários.
- Estou sonhando? Deixe-me entender: você é a mulher do livro sobre a mulher interior, ou seja, eu?
- Sempre querendo entender...é, isso mesmo, sou você, né? Não tente explicar, por favor, chega de tantas teorias, ok? Perceba como quiser, escolha entre tudo o que você andou estudando e praticando, mas por favor, me ouça! Falam tanto em criança interior, e esquecem da mulher interior, mas enfim, estou aqui. E quero te perguntar: de que adianta estudar tantas teorias e ler tantos livros se você não aplicar tudo isso em sua vida?
- Mas eu aplico...
- Acha que aplica. Você não se dá conta da sua alegria de viver se esvaindo. Fica se comportando como se não pudesse mais admirar as coisas belas, rir, cantar, dançar, passear, se divertir um pouco. Afinal, a jovialidade é algo que seria bom te acompanhar para sempre, um sinônimo de leveza, parte da verdadeira sabedoria, você não acha?
- Ah, falar é fácil. Espera, você deve ser um aspecto inconsciente... ou subconsciente como se diz agora, já sei, um fractal, deve ser um holograma... ai, essa minha memória, preciso fazer mais exercícios, eu li tanto a esse respeito ontem mesmo, e agora não consigo lembrar...
- Ai, para com isso, que coisa chata tentar encaixar tudo nas teorias inacabadas que circulam por aí, não tem nenhuma importância se sou real, ou fugi do livro, mas sim a mensagem que quero deixar.
- Ok, minha mulher interior, que saiu do livro, por favor, me diga a que devo essa visita inusitada que ninguém vai acreditar...
- Juju, posso te chamar assim? Afinal, somos íntimas, né?Você está sucumbindo às energias exteriores, deixando-se levar por tristezas que não precisam te derrubar, muitas nem te pertencem. Você não pode parar o mundo, mas pode decidir como reagir ao que te rodeia. Ao buscar tanto conhecimento esqueceu das coisas que te fazem sorrir? Chora sua solidão e não percebe as vitórias que foram conquistadas? Não deixe seu/nosso espírito envelhecer, Juracy! Veja a vida com os olhos libertos de obediência a visões alheias, seja um pouco mais irreverente. O que deu em você? Esqueceu como você/nós somos divertidas? Ai, ai, ai, garota, descubra como se libertar das regras que te fazem infeliz, e que também me afetam, para que o nosso coração possa se expressar. Cante, deixe sua voz sair! Bem, preciso voltar para o livro, missão cumprida.
- Espere, fale mais... Mas a mulher já tinha ido embora.
Foi então que Juracy sentiu algo tocando seu braço e um perfume delicioso na sala. Abriu os olhos. Surpresa, deparou com uma rosa vermelha e perfumada ao seu lado. Fechou o livro. Levantou-se, sorriu para si mesma no espelho da sala e colocou a rosa em seus cabelos. Livre, leve e solta, rodopiando, saiu de casa cantando. Foi passear.