Toti
Lá pelos meus 6 ou 7 anos de idade, ia sempre com minha mãe e
meu irmão à Cascata dos Amores, como fazíamos todos os dias, nas férias em
Teresópolis. Passávamos por uma rua que subia, com muito verde e ar puro, e eu não
conseguia chegar lá em cima sem fazer minha mãe bater na porta de alguma casa
pedindo um copo d’água para mim. Nessa época, meu pai ficava no Rio durante a
semana, trabalhando, e mamãe, meu irmão e eu, no apartamento do ex-hotel
Higino, o imenso Edifício Teresópolis, um tesouro de lembranças gostosas.
Pois bem, era uma linda manhã de verão em Teresópolis e naquele
dia íamos só minha mãe e eu pela tal rua que subia, passando pelos muros verdes
das casas, respirando o ar puro, as duas distraídas, quando ouvimos o
choramingar de um cãozinho que estava embrenhado nas folhas, um filhotinho desamparado
que nos cativou imediatamente. Quase não pensamos ao decidir levá-lo conosco.
Foi a alegria da criançada ver aquela bolinha peluda correr pelos corredores do
prédio, levando o síndico mal humorado a mais uma crise, além daquela que se
manifestava ao ver a pirralhada sentada nos braços das poltronas do hall. Só
rindo, ou sorrindo, talvez seja melhor. Enfim, Toti foi o nome que lhe demos,
alimentado com paõzinho molhado no
leite, porque ninguém ali tinha outra ideia de como alimentar um bebê canino.
A semana passou cheia de alegria, todos ansiosos para meu
pai chegar e conhecer Toti, o novo rei da casa. E ele chegou, final de semana,
todo feliz para nos contar a surpresa que tinha à nossa espera lá no Rio: um
cachorrinho. Parece filme, mas não é, e um dos dois cães ia ter que sair da
família. Ao conhecermos o cachorrinho carioca, preferimos o Toti, já íntimo e
amado a essa altura do campeonato.
Toti cresceu lindo, e em alguns meses tornou-se um vira-lata
elegante e brincalhão. Mas um dia, se excedeu nas brincadeiras e sem querer me
arranhou. Foi o suficiente para ser despejado e enviado para o sítio da
secretária do escritório de papai. Nunca mais o vi, mas soube que estava feliz,
e já tinha até filhotinhos. Trauma para uns, sabedoria para outros.
Ah, pontos-de-vista diferentes! Circunstâncias ditam reações
muitas vezes dolorosas para os pequenos que não enxergam riscos nem aceitam perdas.
Prefiro, hoje, entender que encontros felizes são presentes que recebemos pela vida, e que depois das trocas, caminhos se diversificam. Não há como ter
tudo o que vivenciamos, ao mesmo tempo, no foco da consciência, e para isso
existe a saudade. Ela funciona como uma espécie de gatilho: traz para perto de
nós memórias e aí verificamos se cabem reativações no momento presente. Toti
tornou-se uma dessas deliciosas lembranças que nos lembram sobre o
imprevisível, sobre aquilo que torna a vida uma grande aventura. E que me
transporta pelo tempo, me faz sorrir.