NA MINHA IDADE...
Há tempos, vinda de um lugar muito meu, recebi uma mensagem que dizia: nessa nova fase em sua vida, procure desacelerar, respirar e sentir. Gostei da ideia, e comecei a praticar. Desacelerei, busquei reduzir meu nível de exigência; atentei à respiração, e consegui alguns desapegos; e fui constatando mudanças no meu sentir. Olhei-me então no espelho, diante de todas as novas expressões que o tempo traz, com um olhar cúmplice — um olhar que reconhecia a estrada percorrida, as vitórias silenciosas, as quedas que só eu sei, e a força que me trouxe até aqui. E de brinde, fui perdoando um bocado, também a mim mesma, simplesmente deixando ir. Estou longe do encerramento desse processo, mas nesse encontro comigo mesma surgiu a vontade de registrar palavras que começavam a me chamar: simples, profundas, uma espécie de reflexão conversada, lida ou ouvida. Chamei essa vontade de “Na minha idade...”, e desejei que tais palavras e ideias fossem compartilhadas, que chegassem ao coração dos que percorrem a estrada da vida, lá na frente ou ainda não. Para aprendermos uns com os outros.
Na minha
idade, a solidão ganhou novos contornos, sabiam? Ela não é sempre ausência. Às
vezes, é só um silêncio mais fundo, talvez um espaço, mas um espaço onde eu me
encontro comigo mesma, mesmo quando não gosto muito da companhia. Tenho
aprendido a gostar dela em todos os momentos, mesmo quando algumas vezes, ela
pesa. É quando percebo que o mundo lá fora corre e eu, ... ah! eu já não
acompanho o ritmo. Vejo pessoas apressadas e lembro do tempo em que eu também
corria. Mas, hoje, o corpo negocia, a mente cansa, a memória falha. E essa
distância entre o que eu quero e o que eu consigo mexe um pouco com o meu coração,
não vou negar. Mas, sendo mudança a lei da vida, essa nossa escola (vejo assim),
procuro aprender a lição, peço ajuda à música, ouço e canto a saudade.
Na minha
idade, o pertencimento ficou mais raro. Em algumas conversas, me sinto
deslocada, como se o assunto tivesse mudado de idioma, ou estivesse em outra
dimensão, mas não tivesse sido avisada. Reuniões que antes me interessavam, agora
parecem distantes. Sei que estou ali, mas não exatamente com eles, que parecem dizer: "Vai procurar a tua turma." E tudo bem, já estou indo fazer isso.
Na minha idade, a casa virou templo. A música, companhia. Danço, canto, faço exercícios, um pacto com o corpo. A leitura é um mergulho, uma espécie de “café com amigos”, um bate papo no mundo das ideias e da aprendizagem, também através de livros, filmes, séries. E a escrita, como um portal, se abre para a minha participação nessa troca. Sei que esses portais têm hora para fechar, quando o cansaço chega mais cedo, a energia acaba antes, e tudo bem: desacelerar, respirar e sentir.
Se bobear, e a desesperança tentar entrar, é hora de passear, ver gente, dizer “Olá”, ser útil. Aliás, na minha idade, a busca de utilidade mudou. Não quero ser útil por obrigação, nem por medo de ser um peso. Quero ser útil de um jeito que me dê prazer, que me lembre que ainda tenho algo a oferecer. Porque tenho! Mesmo quando o mundo parece não perceber. Se na minha idade às vezes sinto que estou fora do mapa, os relacionamentos perto e ao mesmo tempo distantes, cada um preso no seu próprio ritmo, lembro que o meu ritmo agora é outro. Mais lento, mais atento, mais sensível, incluindo os rituais pequenos, quase invisíveis, que me trazem luz quando a escuridão ameaça.
Agora há
tempo para um café feito com calma, cheiroso, com torradinhas e manteiga, sem
terrorismo nutricional; um banho demorado, sentindo a mágica da água no corpo,
com música, talvez incensos, e sem corridas ansiosas; uma música que me abraça, e
alegra a casa também, e me chama para cantar ou assobiar, e/ou dançar, deixar o
corpo falar; e de repente, um trecho de livro que me chama pelo nome para viajar em leituras
transportadoras. Cozinhar, brincar de casinha, colocar os pés em cima da mesa, e tem muito mais. Adoro saber quando me contam de outros rituais mágicos criados e adotados, relaxantes, divertidos, sem culpas.
Na minha
idade, eu aprendi que a vida não acabou. Ela só mudou de tom, ficou mais íntima,
e às vezes encontro nela uma beleza que nunca vi antes. Um raio de sol que entra
pela janela, flores coloridas pelos caminhos, coisas que despertam a alma poética dessa menina moradora no meu coração. Nesses tempos, trata-se de uma beleza que não pede pressa,
não pede aplauso, não pede juventude. É uma beleza que só diz: “fica”, “continua”, “tem mais”. Porque ainda há caminho. Ainda há descoberta. Ainda há você!

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