sábado, 27 de junho de 2026

NA MINHA IDADE... 2

 

NA MINHA IDADE... 2              


Tomo meu café, sentada na minha poltrona preferida, perto da janela. Olho para o verde que me cerca e me nutre. Respiro profundamente, sentindo alegria por estar viva e agradeço o retorno da minha consciência a este plano de manifestação. Nessa manhã, recebi uma mensagem sugerindo protocolos para seguir e assim alcançar os resultados anunciados. Fiquei pensando nessa palavra que está na moda, aparentemente técnica, mas com uma carga emocional enorme quando aplicada à vida: protocolo. Um conjunto de regras, gestos e comportamentos que seguimos porque um dia fizeram sentido – ou porque alguém nos disse que deveriam fazer. São instruções muitas vezes invisíveis, que organizam a forma como agimos, reagimos, sentimos e até como nos relacionamos com o tempo. Desde um hábito automático, uma expectativa social, um papel que assumimos sem questionar, uma forma antiga de proteção, ou até uma crença que já não tem nada a ver com quem nos tornamos. Amigos, protocolos parecem ter vida própria, porque continuam funcionando mesmo quando já não servem mais, sobrevivem, ocupam espaço.

E o que isso tem a ver com a idade? Você já se pegou, ultimamente, descobrindo que não quer mais alguma coisa que antes parecia essencial? Um hábito, uma rotina, um jeito de reagir, até pessoas que não te atraem mais? De repente, aquilo que você carregou por anos começa a pesar de um jeito estranho. E você pensa: “Mas eu sempre fiz assim…” Pois é. Eu também.

Penso que chega um momento na vida em que é preciso fazermos uma revisão profunda nos protocolos que seguimos sem perceber, para não ficarmos presos a expectativas ilusórias, negando mudanças. O que ainda faz sentido e o que virou peso morto? O que precisa nascer e o que precisa morrer? Para mim, negar a passagem do tempo é um dos protocolos mais cruéis porque alimenta tais expectativas irreais, que não têm onde se apoiar. Ouvi essa frase em algum lugar: “A idade não pede licença; ela entra pela porta da frente enquanto fingimos olhar pela janela”. Não se trata de um rompimento violento, é um “obrigado por ter me trazido até aqui, mas agora eu sigo por outro caminho”.

Ah, essas nossas despedidas adiadas, porque vamos combinar, sempre se encontra algo que precisa ser deixado para trás. Há crenças que envelheceram mal, hábitos que já não protegem, versões de nós mesmos que ficaram apertadas. Há um momento em que você segura o objeto na mão e decide: fica ou vai? Você se olha no espelho e dá o adeus mais delicado, não aceitando a idade como derrota, mas como território novo. Porque negar o tempo é negar a própria vida!  Dizer adeus à ilusão da juventude eterna abre espaço para uma maturidade que não é resignação, é potência para abrir mão de pequenas ficções que usamos para não encarar o real. Quando soltamos essas ficções, dói, eu sei, também sinto saudades, mas acredite, liberta. É um tipo de adeus que permite respirar, porque é feito de verdades.  Falando em verdades, pense comigo. E se a vida for menos sobre acumular e mais sobre aprender a verdade sobre o tempo certo? Um ato de honestidade com o tempo, e não desapego forçado. É reconhecer que: algumas coisas cumpriram seu papel, muitas lembranças lindas, ok, mas algumas versões nossas já não nos servem, alguns vínculos se transformaram, alguns sonhos eram apenas ensaios, alguns protocolos agora atrapalham. E que nada disso precisa ser carregado como falha pessoal. É olhar para o que foi e dizer: “Obrigada. Eu sigo daqui.”

E sobre a culpa, ah, é ela que nos mantém presos a protocolos antigos, sem autorização para atualizarmos a vida, e aparece quando achamos que deveríamos ser quem fomos. Dizer adeus sem culpa às nossas versões antigas abre espaço para a versão atual respirar, e talvez seja essa a forma mais efetiva de liberdade, dizendo “Basta!” ao percebermos que estamos repetindo coisas que sabemos que não darão certo; que é mais fácil insistir no velho conhecido do que encarar o vazio, mesmo quando o velho já não serve; e que estamos seguindo protocolos obsoletos sem perceber, regras que ninguém escreveu, mas que obedecemos como se fossem lei e papéis que um dia fizeram sentido, mas que hoje só repetimos porque sempre foi assim. Protocolos são isso: trilhos antigos que continuam lá, mesmo quando o trem já não passa. O que ainda me sustenta? O que só ocupa espaço? O que vibra? O que pesa? E, principalmente, o que eu continuo carregando só porque tenho medo de não saber quem serei sem aquilo. A gente tenta preservar certezas que já não combinam com o corpo, com o ritmo, com o olhar. Tentamos congelar versões nossas que já se despediram faz tempo, tentando manter o mundo estável — mesmo quando tudo já mudou. Com nossas versões antigas, esperamos que a vida responda como respondia antes, que as pessoas nos vejam como nos viam, que o futuro siga roteiros que já não existem, e ficamos dançando uma coreografia que já não combina com quem somos hoje. Ah, amigos, a vida pede outra postura, outro ritmo, outro olhar!

Imaginemos uma fogueira mágica, e joguemos nela protocolos que já não nos sustentam, a teimosia que nos prende ao que não funciona, as versões antigas que cumpriram seu papel; expectativas que só existiam para evitar o vazio, o medo que nos mantinha pequenos, com a ilusão de que o tempo não nos toca. Quer saber? Talvez seja essa a hora de tratarmos nossa vitória com mais carinho: tirar da gaveta aquilo que escrevemos, criamos, guardamos, sonhamos, nossa sabedoria e experiência de vida, com um gesto de cuidado que a gente adiou por anos. Porque cada marca conta uma história. Porque cada tropeço virou sabedoria. Porque cada recomeço é um ato de coragem. E talvez seja isso que muda tudo: aceitar o novo, soltar o que pesa, rir do que não deu certo, e começar a se amar de um jeito que a gente nunca se permitiu antes. No fim das contas, trata-se de um reencontro, um ajuste de rota. E, olha… fica tão mais bonito assim. No fim das contas, esse movimento não é sobre perda. É sobre coragem, coerência. Sobre alinhar quem fomos, quem somos e quem ainda podemos ser.  Com a coragem de recomeçar — mesmo sem saber exatamente para onde, olhar de novo no espelho e dizer: “Eu te amo. Parabéns por ter chegado até aqui!

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