NA MINHA
IDADE... 2
Tomo meu café, sentada na minha poltrona preferida, perto da janela. Olho para o verde que me cerca e me nutre. Respiro profundamente, sentindo alegria por estar viva e agradeço o retorno da minha consciência a este plano de manifestação. Nessa manhã, recebi uma mensagem sugerindo protocolos para seguir e assim alcançar os resultados anunciados. Fiquei pensando nessa palavra que está na moda, aparentemente técnica, mas com uma carga emocional enorme quando aplicada à vida: protocolo. Um conjunto de regras, gestos e comportamentos que seguimos porque um dia fizeram sentido – ou porque alguém nos disse que deveriam fazer. São instruções muitas vezes invisíveis, que organizam a forma como agimos, reagimos, sentimos e até como nos relacionamos com o tempo. Desde um hábito automático, uma expectativa social, um papel que assumimos sem questionar, uma forma antiga de proteção, ou até uma crença que já não tem nada a ver com quem nos tornamos. Amigos, protocolos parecem ter vida própria, porque continuam funcionando mesmo quando já não servem mais, sobrevivem, ocupam espaço.
E o que isso tem a ver
com a idade? Você já se pegou,
ultimamente, descobrindo que não quer mais alguma coisa que antes parecia
essencial? Um hábito, uma rotina, um jeito de reagir, até pessoas que não te
atraem mais? De repente, aquilo que você carregou por anos começa a pesar de um
jeito estranho. E você pensa: “Mas eu sempre fiz assim…” Pois é. Eu também.
Penso que chega um
momento na vida em que é preciso fazermos uma revisão profunda nos protocolos
que seguimos sem perceber, para não ficarmos presos a expectativas ilusórias,
negando mudanças. O que ainda faz sentido e o que virou peso morto? O
que precisa nascer e o que precisa morrer? Para mim, negar a passagem do tempo
é um dos protocolos mais cruéis porque alimenta tais expectativas irreais, que
não têm onde se apoiar. Ouvi essa frase em algum lugar: “A idade não pede
licença; ela entra pela porta da frente enquanto fingimos olhar pela janela”. Não
se trata de um rompimento violento, é um “obrigado por ter me trazido até aqui,
mas agora eu sigo por outro caminho”.
Ah, essas nossas despedidas
adiadas, porque vamos combinar, sempre se encontra algo que precisa ser deixado
para trás. Há crenças que envelheceram mal, hábitos que já não protegem,
versões de nós mesmos que ficaram apertadas. Há um momento em que você segura o
objeto na mão e decide: fica ou vai? Você se olha no espelho e dá o adeus mais
delicado, não aceitando a idade como derrota, mas como território novo. Porque
negar o tempo é negar a própria vida! Dizer
adeus à ilusão da juventude eterna abre espaço para uma maturidade que não é
resignação, é potência para abrir mão de pequenas ficções que usamos para não
encarar o real. Quando soltamos essas ficções, dói, eu sei, também sinto
saudades, mas acredite, liberta. É um tipo de adeus que permite respirar,
porque é feito de verdades. Falando em
verdades, pense comigo. E se a vida for menos sobre acumular e mais sobre
aprender a verdade sobre o tempo certo? Um ato de honestidade com o tempo, e
não desapego forçado. É reconhecer que: algumas coisas cumpriram seu papel, muitas
lembranças lindas, ok, mas algumas versões nossas já não nos servem, alguns
vínculos se transformaram, alguns sonhos eram apenas ensaios, alguns protocolos
agora atrapalham. E que nada disso precisa ser carregado como falha pessoal.
É olhar para o que foi e dizer: “Obrigada. Eu sigo daqui.”
E sobre a culpa, ah, é
ela que nos mantém presos a protocolos antigos, sem autorização para atualizarmos
a vida, e aparece quando achamos que deveríamos ser quem fomos. Dizer adeus sem
culpa às nossas versões antigas abre espaço para a versão atual respirar, e talvez seja essa a forma mais efetiva de
liberdade, dizendo “Basta!” ao percebermos que estamos repetindo coisas que sabemos
que não darão certo; que é mais fácil insistir no velho conhecido do que
encarar o vazio, mesmo quando o velho já não serve; e que estamos seguindo
protocolos obsoletos sem perceber, regras que ninguém escreveu, mas que
obedecemos como se fossem lei e papéis que um dia fizeram sentido, mas que hoje
só repetimos porque sempre foi assim. Protocolos são isso: trilhos antigos que
continuam lá, mesmo quando o trem já não passa. O que ainda me sustenta? O que
só ocupa espaço? O que vibra? O que pesa? E, principalmente, o que eu continuo
carregando só porque tenho medo de não saber quem serei sem aquilo. A gente
tenta preservar certezas que já não combinam com o corpo, com o ritmo, com o
olhar. Tentamos congelar versões nossas que já se despediram faz tempo,
tentando manter o mundo estável — mesmo quando tudo já mudou. Com nossas versões
antigas, esperamos que a vida responda como respondia antes, que as pessoas nos
vejam como nos viam, que o futuro siga roteiros que já não existem, e ficamos dançando
uma coreografia que já não combina com quem somos hoje. Ah, amigos, a vida pede
outra postura, outro ritmo, outro olhar!
Imaginemos uma
fogueira mágica, e joguemos nela protocolos que já não nos sustentam, a teimosia
que nos prende ao que não funciona, as versões antigas que cumpriram seu papel;
expectativas que só existiam para evitar o vazio, o medo que nos mantinha
pequenos, com a ilusão de que o tempo não nos toca. Quer saber? Talvez seja essa
a hora de tratarmos nossa vitória com mais carinho: tirar da gaveta aquilo que
escrevemos, criamos, guardamos, sonhamos, nossa sabedoria e experiência de vida,
com um gesto de cuidado que a gente adiou por anos. Porque cada marca conta uma
história. Porque cada tropeço virou sabedoria. Porque cada recomeço é um ato de
coragem. E talvez seja isso que muda tudo: aceitar o novo, soltar o que pesa,
rir do que não deu certo, e começar a se amar de um jeito que a gente nunca se
permitiu antes. No fim das contas, trata-se de um reencontro, um ajuste de
rota. E, olha… fica tão mais bonito assim. No fim das contas, esse movimento
não é sobre perda. É sobre coragem, coerência. Sobre alinhar quem fomos, quem
somos e quem ainda podemos ser. Com a
coragem de recomeçar — mesmo sem saber exatamente para onde, olhar de novo no
espelho e dizer: “Eu te amo. Parabéns por ter chegado até aqui!

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