NA MINHA IDADE... 3
Na minha idade… a
alimentação virou uma conversa íntima. Não somente sobre aquilo que comemos,
mas sobre o que absorvemos de informações pela vida afora. Também não é sobre
voltar ao que fui, aos 40, ou aos 50. É sobre honrar quem sou agora, viver com
o corpo que tenho hoje, com direito a todas as transformações que chegam nessa
fase. Estou aprendendo que alguns limites também me abrem para outras possibilidades;
que a minha verdadeira saúde nessa idade é não entrar em guerra com a comida,
mas escolher alimentos com carinho, observar com calma e respeito o meu corpo. Busco
manter o prazer, com criatividade, livre de restrições sem sentido. Na minha
idade adquiri o bom senso de não me obrigar a dietas, porque a parte mais
difícil da alimentação não é o que comer, mas escutar o corpo por cima do
barulho dos anúncios que pipocam na internet atualmente. Ele é uma espécie de crítico
de teatro. Assiste a tudo, observa tudo, e não aplaude qualquer coisa. Marketing?
Ele vai embora no meio da peça. Nem espera o segundo ato. Meu corpo não lê
propaganda, não segue moda. Mas diz outra coisa: “Me respeite. Me observe. Me
escute, a gente já viu muita peça ruim para continuar acreditando em promessa
de cartaz luminoso”. O marketing diz que idosos devem fazer um bocado de
coisas, desde cortar carboidratos, entrar em cetose, fazer jejum, buscar
suplementos caríssimos, e até virar atleta. Mas meu corpo só entende se está
feliz, e me proporciona bem-estar quando está leve, sendo respeitado. Resolvi não
seguir essa fábrica de medo da idade e da comida, mas confiar no meu
discernimento para avaliar informações sérias, as adquiridas com a vivência, com
a sabedoria, e, se necessário, a busca de um profissional competente, e não mais
um comerciante da fé.
Comecei a dar à alimentação
direção artística. Sem aplicativos. Sem fanatismos. Sem dias de castigo. Sem
“dia do lixo”. Porque lixo… eu não como. Eu como empadão, bolo de festa. E como
com alegria. Tenho brincado na cozinha: lentilhas negras com macarrão de arroz,
uma versão israelense da sopinha de feijão com cabelinho de anjo da infância; queijo
com tâmaras, minha goiabada com queijo israelense. Passei a comer só quando
tenho fome, e acolhi a importância do eventual, não a compensação pelo tédio,
apesar de que isso também pode acontecer. É vida. É chocolate, é crocância na
salada, é molhinho gostoso, é prazer sem culpa. Porque na minha idade, o que
faz mal não é o brigadeiro da festa — é a culpa depois dele. Eu nunca aceitei
ir a uma festa e não comer bolo. E não vou começar agora.
Quero uma vida gostosa,
com sabor, com humor. Essa é a parte que a gente só entende… quando chega até
aqui. Desacelerar, respirar, sentir, exercitar-se com movimentos leves,
pensamentos também, liberando o peso das expectativas de que envelhecer é apenas
perder força, beleza, relevância, prazer. Envelhecer também é ganhar. É integrar
sabedoria ao estilo de vida. É ganhar a liberdade e a coragem de dizer “não”. E
de dizer “sim”. De sentir prazer no tempo, nas coisas pequenas, ter a
capacidade de olhar para a vida… e sorrir… porque chegamos até aqui.
